Índios da Venezuela são expulsos por guerrilheiros colombianos
Antropologia

Índios da Venezuela são expulsos por guerrilheiros colombianos


A Folha de São Paulo enviou um repórter até a região do Apure, na Venezuela, para certificar-se do que aconteceu por lá em relação a uma comunidade indígena. Aparentemente essa comunidade teria sido expulsa de suas terras por um ataque de guerrilheiros vindos da Colômbia.

A matéria abaixo foi feita na cidade de El Amparo, onde os indígenas da etnia Makawan teriam se refugiado. Segundo o repórter, estão vivendo em péssimas condições perto do lixão daquela cidade. Querem providências do governo venezuelano, até aceitam irem para outras terras. Por que?

O repórter, em sua matéria principal, não deixa dúvidas de que a comunidade Makawan teria mesmo sido expulsa com uma mão na frente e outra atrás. Teriam sido escorraçados. Porém, na matéria seguinte, feita com entrevistas de soldados do governo venezuelano, os índios teriam saído de suas terras e abandonado seus bens porque "quiseram". Entretanto, o soldado bolivariano declara que iria ajudá-los de qualquer jeito.

Muito estranho! Uma matéria que deixa o leitor sem saber exatamente por onde está a verdade!

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Índios na Venezuela fogem de conflito na Colômbia

Violência no país vizinho cria população de deslocados internos na região fronteiriça


Mais de 90 famílias deixam suas casas no Estado de Apure, incorporado à rota do narcotráfico, seqüestros e extorsão pelas Farc e o ELN

Fabiano Maisonnave, Enviado especial a El Amparo, para a Folha de São Paulo

O relato é típico do conflito interno colombiano. Por volta das 14h do dia 13 de julho, guerrilheiros das Farc invadiram duas comunidades indígenas vizinhas e impuseram três horas para que deixassem tudo para trás -casas, animais e plantações.

Cento e quarenta homens, mulheres e crianças começaram uma longa marcha a pé apenas com a roupa do corpo e um pouco de alimento rumo ao país vizinho.

A diferença é que, desta vez, as 23 famílias expulsas de suas terras estavam na Venezuela. E o país vizinho é a Colômbia.
Há quatro semanas, o primeiro grupo de 17 famílias da etnia makawan voltou à Venezuela, depois de caminhar por oito dias até a cidade colombiana de Arauca, onde ficaram acampadas no lixão da cidade. Na semana passada, foi a vez dos kuivas, que haviam fugido a uma zona isolada da Colômbia.

Na última quinta-feira, a reportagem da Folha visitou o grupo na cidade de El Amparo, perto da fronteira. Todos dormem num posto de gasolina abandonado, desprotegido do vento e da chuva. Não há água nem banheiro. Os poucos pertencem se resumem a redes, colchões, brinquedos velhos e panelas doados pela prefeitura e por organizações religiosas.

A pouca comida disponível é distribuída de forma irregular por grupos religiosos e entidades do Estado. Durante o dia, a maioria dos homens sai por El Amparo, de apenas 10 mil habitantes, a caçar lagartos para complementar as refeições.

"Deixamos as vacas, cavalos, burros, plantação de banana, mandioca, milho, acho que eles [os guerrilheiros] agarraram tudo", diz o líder do grupo, Joaquim (nome fictício), 38. "Temos de começar de novo."

Inicialmente com receio de falar, Joaquim diz que é a primeira vez que está fora do seu território, localizado no município de La Victoria, de uns 20 mil habitantes e com forte presença guerrilheira. Num espanhol pausado, diz que "de 150 a 300" guerrilheiros armados participaram da operação. Outras 40 famílias ficaram na área -segundo ele, porque aceitaram "colaborar" com as Farc.

O líder, chamado de "capitão" pelos outros indígenas, diz que não há hipótese de o grupo voltar à região. Mostrando uma cópia amassada da Constituição venezuelana, diz que está pedindo ao governo Hugo Chávez uma nova área.
Embora o episódio tenha acontecido há dois meses, o governo venezuelano diz que ainda não sabe se as famílias saíram por decisão própria ou se foram ameaçadas pela guerrilha (leia texto nesta página).

O Serviço Jesuíta a Refugiados (SJR), que vem dando assistência aos indígenas, afirma que não foi possível corroborar a versão dos indígenas. Mas, segundo um alto funcionário da entidade, não há dúvidas de que se trata de uma "emergência humanitária e de um deslocamento interno em massa".

Por outro lado, o SJR diz que o mais urgente é que nenhuma entidade do Estado assumiu até agora a atenção ao grupo, formado principalmente por crianças, muitas com problemas de diarréia. Anteontem, quando a reportagem visitava o local, uma esperada visita médica nunca chegou.

Reincidência

Não são os primeiros casos de deslocamento em Apure, Estado fronteiriço predominantemente rural e forte presença de guerrilheiros das Farc, do ELN (Exército de Liberação Nacional) e da nascente guerrilha venezuelana, FBL (Forças Bolivarianas de Liberação).

Em outubro do ano passado, 70 famílias da mesma região de La Victoria deixaram a área rural por causa de enfrentamentos entre as Farc e o ELN, que disputam o controle da fronteira -estratégica para rotas do narcotráfico, para a realização de seqüestros e para a cobrança de "vacina" -extorsão- de fazendeiros e comerciantes em ambos os países.

A maior parte das famílias ficou alojada num restaurante de La Victoria cedido pela dona. A maioria voltou às suas casas depois de três semanas, após o Exército venezuelano ter realizado uma operação na região.

No início deste ano, foi a vez de a proprietária do restaurante ter de abandonar La Victoria depois de um de seus filhos ter sido morto, aparentemente em represália à sua ajuda.

Embora não existam estatísticas, relatos recebidos por entidades como a SJR dão conta de que há vários casos de deslocamentos forçados individuais, como foi o caso da dona do restaurante em La Victoria.

A região de Apure também tem recebido um fluxo constante de refugiados colombianos vindos de áreas contíguas. Segundo o Acnur (agência da ONU para refugiados), 286 colombianos pediram refúgio ao longo do ano passado. De janeiro a junho deste ano, já foram 286 casos, entre recém-chegados e moradores que decidiram buscar o benefício.

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Opinião do governo venezuelano


Para governo, grupo se foi "porque quis"


Um porta-voz do Ministério do Poder Popular para os Povos Indígenas da Venezuela afirmou que os indígenas "se foram porque quiseram", mas admitiu que o governo não conseguiu determinar o que motivou o seu deslocamento.

"Eles se foram porque quiseram, em nenhum momento havia grupos irregulares na região", disse à Folha Lalcacho Frailiz, chefe-de-gabinete do vice-ministro de Assuntos Indígenas, responsável pelos índios de Apure.

Segundo Frailiz, uma equipe do governo esteve na região de onde o grupo teria sido expulso. Ele afirmou que os índios que permaneceram negaram a presença de guerrilheiros e afirmaram que as famílias saíram por vontade própria.

"Há duas versões, não podemos nos comprometer com nenhuma", afirmou o representante do governo, depois de inicialmente ter negado que o deslocamento tenha sido forçado.

Frailiz disse que, embora a maioria tenha cédulas de identidade venezuelanas, o grupo é de origem colombiana e estava radicado numa área do país vizinho antes de cruzar a fronteira para El Amparo. "Eles viviam na Colômbia e trabalhavam na Venezuela."

O funcionário do governo Hugo Chávez disse que, mesmo assim, o ministério vai atender às reivindicações do grupo.

"Primeiro, porque somos indígenas. Segundo, porque somos revolucionários socialistas."

Segundo a Folha apurou, o serviço de inteligência do Exército na região acredita que o grupo tenha sido forçado a abandonar o território devido a uma disputa interna, e não por causa da presença das Farc.

Procurado pela reportagem, o Conare (Comitê Nacional de Refugiados), órgão do governo venezuelano, não atendeu aos pedidos de informação sobre deslocamentos internos.

Representantes de entidades ligadas ao atendimento de deslocados internos na Venezuela avaliam que o governo de Hugo Chávez resiste em reconhecer a existência do problema no país porque equivaleria a uma admissão de que não tem o controle sobre todo o seu território, como acontece na vizinha Colômbia.



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